Gatinho sem mãe no meio da rua
não sabe o risco que corre...
No meio da via assustado
ou volta, ou morre...
Não era para estar na rua assim.
Devia era estar cravando as unhas de agulha
num novelo de lã pingouin...
Mas perdido-jogado-fora
agora é só ele, os motoristas apressados
e os pneus radiais...
Tudo encurta
ou fica por um triz,
e o perigo aumenta ainda mais...
O primeiro carro dá uma guinada e passa;
vem logo um segundo e desvia.
O gatinho indefeso indefine-se,
não sabe se arrepia ou mia...
Um outro carro passa tirando um fininho...
Horroriza a moça do quarto carro
que adora gatinhos!
O carro pára bruscamente e ela desce.
A rua, as casas e os outros carros
não entendem seu gesto,
mas acham bonito...
Ela salva o gatinho!
Pratica a primeira boa ação do dia!
Ela sente em seu colo
um coração felino
que quase sai pela boca de arritmia...
E a buzina no trânsito naquela fração de segundo
é pura impaciência...
Mas o que se devia era prestar reverência
Ao raro amor a vida que a moça espalha pela manhã
com grandiloqüência!



