o que traz o fósforo
quando ninguém quer fogo
o que sugere o filme
quando todos só querem o jogo
eu sou o que fecha a torneira
quando todos tomam banho de cachoeira
eu sou a torrente
a própria correnteza
a água
o gole
a gota
o suor
a lágrima
a saliva
tudo que umedece
quando o resto do mundo "aridece" (*)
eu sou o lençol engomado
o lenço que venda os olhos
mas todo amassado
eu estou bem acompanhado
mas sem ninguém do lado
sou a lança que não fura
ou uma bolha que não dura
o que persiste
quando todos desistem
quero me achar
quando até a bússola se perde
eu sou o toque
na pele mais lisa
o torque
para ultrapassar quando precisa
eu sou de brisa
mas me conheço
pelos ventos fortes
sou capaz de destelhar casas
e quase morrer sufocado
eu sou como o cheiro de perfume
que com o tempo enfraquece
ou como um arrepio que de tão louco
não se sabe se sobe ou desce
eu sou o que sou
eu sei
e mais ninguém sabe
(*) Aridece - Até hoje essa palavra não existia. Mas as palavras novas são assim. Um dia elas nascem. "Aridece" nasceu hoje e simplesmente se refere a tudo àquilo que resseca ou que se torna árido.




