quarta-feira, 3 de novembro de 2010
POR UMA GOTA DE PERFUME NUM MAR DE DECEPÇÃO
- resistem a passagem do tempo
como as letras nos originais...
duro é quando as alegrias não duram
- efêmeras esgotam apagam
como as letras num papel de fax...
as alegrias são voláteis, evaporam
as tristezas, dissecadas ou não
esnobam imortalidade...
as tristezas vão para os litros de vidro;
- prateleiras e mais prateleiras
no acervo bizarro dos museus da alma...
e a exata definição
é que as alegrias são quase
como uma só gota de fragrância...
em contrapartida as tristezas
lotam litros, livros, oceanos
e nos provocam ânsias.
e rindo ou chorando
perdemos o sono
e o lugar no último vôo...
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
BOCEJOS, TREJEITOS E NECESSIDADES
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
CRIPTOGRAFADO
tenho tantos rabiscos...
mas tantos...
que se fosse aproximá-los...
daria um estranho quadro
de metro quadrado
de arte pré-durante-pós-moderna!
tenho tantas divagações
que me quebro
e nada me conserta...
tantas anotações estranhas nas margens
tantas vertigens e falta de imagens...
que eu seria um livro de suspense
suspenso sobre a sombra do nada...
escondido
para não dizer criptografado
eu sou assim:
além de decifrações!
assim:
aquém de interpretações
só esperando o amém
de quem nunca vem...
[ Esse poema teve origem nas reações que me percorreram ao ler o poema "Garatujas Polissêmicas" no blog Opuntia da Carla. "...nos RabISCOS reBUSCO os SENTIDOS..."
http://opuntia-cactus.blogspot.com/2010/10/garatujas-polissemicas.html ]
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
ABRAÇO
bom é o abraço
que quando acontece
nunca se sabe
quem é um
e quem é o outro
perfeito é o abraço
que quando acontece
nunca se sabe
qual dos dois
se é
os braços se amarram
os olhos se fecham
e então,
com a mesma delicadeza
dos rostos que encostam,
os corações abrasam
e o mundo grande
cabe todo
em cima dos pés
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
VINTE E UM REAIS E CINQUENTA CENTAVOS
Uma e vinte um no bar!
Música ao vivo meio Morta!
- No mínimo morna!
Eu fiz a conta
e deu um garçom
para cada 6,25 pessoas!
Na metade fumarenta e obscura,
uns vinte gatos pingados
fazem barulho...
Na metade sem fumaça,
eu, um casal de lésbicas
e um outro de sexo opostos...
Pelas paredes
as fotos desbotadas que,
assim como eu,
há muito tempo
não dizem muito...
E meu estômago, de fome,
que canta melhor que a guria,
no palco diminuto,
que pensa que canta!
Claquete sem anotações pra edição!
"Remake" do filme da minha vida
que ninguém viu, nem eu...
E o miserável repertório
rolando impune
e que é capaz de forjar duetos improváveis:
Scorpions e Alanis Morissette;
Pato Fu e Ana Carolina misturados...
Se eu fosse dar uma nota, dava zero!
Coca-Cola zero e gelo, esses sim!
- Pastel de queijo e frango a passarinho...
E, pra variar, eu antes das duas, enojado,
pagando a conta e saindo sozinho!
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
AMOR DE SAL, MUMU E YPIÓCA
como amor pra vida
o rio e o mar pra pororoca,
o sal está pra pipoca
como o mumu pra tapioca
o limão, o açúcar e o gelo
...pra ypióca
o amor está no ar
na sorte e no azar
está no fogo e no jogo
na água e na mágoa
o amor é gelo e fervura
é gosto, gastura e gostosura
é um fio de navalha
ou de cabelo
o amor é um apelo
um grito no escuro
é um ai duro e puro
o amor está no poema
e no tema
é vogal que às vezes
precisa de trema
está na moldura do quadro
na frente, atrás
desse ou daquele lado
o amor é meu, é teu
por inteiro ou pela metade
está nas vontades
das puberdades
e das maturidades
nas pontas e meios
das longitudes
e latitudes
e é alheio
às vicissitudes
[ Mumu = É como se chama doce de leite pastoso no sul do Brasil ]
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
SONHOS AMARROTADOS
mergulhado em tristeza sem fundo
em inadequação do tamanho do mundo
procuro estrelas e só acho pontos de luz difusa
o sorriso se apaga
quando a luz das duas estrelas dos olhos se fecha
parca retórica até bonita, quando feio é quem usa
quero entrar noite adentro e sair ileso
mas com todo esse peso
a única brecha, mais veloz que flecha, se fecha...
soterrado por pensamentos estranhos
espero segundos mais lentos que passo de tartaruga
e como um paquiderme
rengueando para se safar do perigo
ostento a milésima fuga
e falo muito sem nem entender o que eu digo
não sei se são esperanças ou esperas inúteis
pego no sono com o cotovelo na mala e a mão no queixo
por dentro uma fala que insiste em gritar
mas que não deixo
e ao meu lado andando serenamente
aquele pedaço da noite de maior solidão
em que até os bêbados
e os que roubam carros já dormem
arrasto passos lentos mergulhado em tristeza
vou como se estivesse cavando buracos
no fundo de um imaginário poço
alguém me chama
parece ser do outro lado da rua
mas é a minha própria voz que eu ouço
e sei então que é hora de guardar
o vazio e a solidão dentro um do outro
e fazer como fazemos com as bolas de meia
entre as roupas da mala
ou as meias, ou as roupas se acomodando
ou simplesmente amassando
como amassados, por vezes ficam,
os lisos papéis das escrituras de posse
dos nossos sonhos adiados
que vão se amontoando...
[ NOTA: Sentei e comecei a ler. Não era uma história qualquer, era a história de uma das meninas, da série "As Meninas" da Deia do blog Rumo à escrita.
Estava lá o título “A menina e a noite - da série as Meninas - 6" me convidando para uma boa leitura. Em determinado ponto, a imagem dos minutos que se amontoam enquanto vamos esperando me fez pensar nas noites inteiras em que nos sentimos frios e vazios, a ponto de adormecer com o corpo pesado, pendendo sobre nossas malas e apenas com a noite no lugar do telhado. Na mesma hora, num comentário que deixei sobre o post, eu comentei com a Deia que aquela bela imagem, se bem explorada, daria um bom ponto de partida para uma nova poesia.
No mesmo dia ela veio aqui para me fazer um pedido. Perguntou: “porque não escreve o poema que imaginou ao ler aquela frase lá no Rumo”? Então eu reli “A menina e a noite”. Parei de novo no ponto do texto que me sugeriu as imagens e comecei a escrever.
Depois duma troca de e-mails com a Deia, eu enviei os versos acima, em primeira mão, para que ela “sentisse” a poesia. Sugeri que ela escolhesse uma imagem que casasse com a poesia e um título adequado, enfim algo da sua cabeça e que tivesse a ver com os sentimentos que a poesia despertasse nela.
Então ela escolheu essa foto fantástica que combina perfeitamente com as coisas que transitaram por minhas estranhas e escondidas avenidas quando concebi esse poema. E o título “Sonhos Amarrotados” é como uma roupa de festa cobrindo o meu poema com simplicidade e delicadeza.
Por último combinamos publicar em nossos respectivos blogs, de forma simultânea os meus versos, ao acompanhamento do título e da imagem escolhidos pela Deia. Um casamento perfeito para que vocês aproveitem e, depois, lá no Rumo à escrita ou aqui no Pelos caminhos dos plátanos deixem seus comentários."]

