O olhar que mais me assusta
é o meu no espelho...
Olhar estranho;
demasiado crítico!
Que sabe coisas a meu respeito
que nem eu sei...
Que balbucia coisas
que eu não entendo
e nem quero ouvir...
Olhar sem expressão
que me empurra de volta
pro meio do escuro...
Calado, paquidérmico e sonolento!
Por que quem disse
que preciso de sol
se escolhi o sal?
... da lágrima
... e do azar da insônia
... e mais uma falta desconcertante
de frases com um mínimo de conteúdo!
[ http://twitter.com/hiverdaniel ]
Que tal eu ficar quieto hoje?
Nenhuma palavra!
Nenhuma sílaba!
Nem um fonema sequer!
Que tal eu ficar irrequieto?
Por um bom tempo
ficar sem escrever;
sem nem sequer rabiscar!
Por que a poesia
quando anda por dentro
não cansa;
mas quando esparramada
sobre o papel
pode ser enfadonha...
Escondida num caderno
ou publicada num livro
destrói conjecturas;
assina libelos...
Por que o que se escreve agora
algum aloprado
pode tentar "interpretar"
daqui a cem anos...
E sob o olhar crítico,
a verdade simples e despretensiosa
torna-se ambígua...
Por que a poesia,
não é para ser,
mas pode ficar "complexa"
sob o olhar de quem lê...
Embora não tenha nada de intrincada
no coração de quem escreve!
Por que a poesia
inventa palavras,
mas não sentimentos...
Come os "esses",
derruba a concordância,
desacorda até o acordo
... ortográfico!
Tem seu próprio peso,
altura, profundidade e dor...
E, assim, as obviedades
passam a ocupar
terrenos de profundas densidades
sob um olhar leitor!
[ http://twitter.com/hiverdaniel ]