quarta-feira, 16 de junho de 2010

O POEMA DOS “OS”

Por um tempo

eu fui irritantemente OBSEQUIOSO;

depois, e bem aos poucos,

me tornei irrefletidamente OBSESSIVO...

Rapidamente,

quase instintivamente,

eu fui dormir um dia assim

e acordei OBCECADO...

 

Bem feito pra mim!

Que fui OBRIGADO a andar mais calmamente

pra disfarçar o fato de ter me tornado OBSOLETO...

 

E aproveitando que num segundo

todos os OBJETOS são ÓTIMOS

e já no segundo seguinte

as OBVIEDADES e todos os OBSTANTES

não são bons o bastante;

vou tentar ser menos OSTENTOSO

e admitir que minha falta de chão é OSTENSIVA!

Que a falta de chão é o verdadeiro OBSTÁCULO!

 

E que vou me esconder na concha como boa OSTRA!
 

[ Aguardem "O POEMA DE OZ" na próxima postagem. ]

 
 

terça-feira, 1 de junho de 2010

HAIKAIS

HAIKAIS

 

DO JARDIM

 

A flor no jardim

tem cores e contornos

que lembram você.

 

DO RENASCIMENTO

 

Azuis ou verdes

meus olhos te enxergam

e ressuscitam.

 

DO BEIJO

 

Depois do beijo

coração que andava

passou a correr.

 

DA CHANTAGEM

 

Te dou um haikai

mas quero um abraço;

um não, quero mais.

 

DO PÔR-DO-SOL

 

Tranquilamente

o fim de tarde lindo

fez o dia sumir.

 

DO TORMENTO

 

A paz é a lua

e minha falta de paz

- o universo.

 

DO PESADELO

 

Fui dormir cedo

acordei às três horas.

- pesadelo ruim!

 

DA SOLIDÃO

 

Sentir solidão

é tão, mas tão ruim

que chega doer!

 

DO CAFÉ COM JORNAL

 

Café com leite

pão nove grãos e suco

- olhos no jornal!

 

DO JORNAL NO CADERNO DE ESPORTES

 

Bateu na trave!

Uhhhh! Monossilábico

- estádio chorou!

 

O Inter ganhou

podia ter empatado

- ficou bom assim.

 

O Grêmio perdeu

podia ter empatado

- gostei mais assim.

 

DO CELULAR

 

Tocou celular!

Musica idiota!

- Maldito chefe!

 

DO HAIKAI

 

Peguei o jeito

os haikais são perfeitos

pra definições. 

 

 

( Esse post é dedicado ao meu amigo Élcio, do blog "Verseiro". Se não fosse por ele eu não teria escrito esses "Haikais". Também não teria vencido algumas barreiras e, enfim, aquele longo poema do dia 19 de novembro de 2009 sobre meu pai, não teria nascido. Também sem o seu convite eu não teria me descontraído o bastante a ponto de "atinar" aquelas coisas da blogagem coletiva do 1º de abril de 2010; a minha primeira, e até agora única, blogagem coletiva de que participei. Tudo culpa do Élcio.

 

Então, ele me apareceu com mais essa. Sugeriu que eu escrevesse uns "Haikais". E aí eu tive que ir atrás para saber do que se tratava. A primeira coisa de que me lembrei é que esse nome tinha todo jeito de nome de drink. Mas eu pesquisei e descobri que ia dar o maior fora se insistisse com essa história de drink. E pronto, vi do que se tratava, achei a bilheteria, paguei uma entrada, e entrei de vez no universo dos certeiros, suaves e concisos "Haikais" de três linhas e 17 sílabas;  distribuídas na forma de 5, 7 e 5 sílabas respectivamente em cada linha.

 

Escrever esses "haikais" foi um exercício e tanto. Saíram esses primeiros que estou publicando agora. E podem imaginar, à medida que ia escrevendo era um tal de contar nos dedos as sílabas para encaixar os versos no esquema 5-7-5. Estranho e viciante. Me senti um verdadeiro japonês sentado no chão em cima das próprias pernas.  

 

Dizem que as primeiras poesias são meio ingênuas. Depois vamos apurando o estilo e elas encorpam. Posso dizer o mesmo desses "Haikais" aí em cima. Os meus primeiros "Haikais". Um tanto simples. Outro tanto ingênuos, sim. Mas os primeiros. Bebês "Haikais" que ainda dependem do meu colo, mas que com o tempo, terão sua adolescência e fase adulta e andarão pelas próprias pernas. Tomara! )

segunda-feira, 24 de maio de 2010

SACADA

para alguns comedores compulsivos de salada
por vezes só o que resta
é a solidão do fim da balada

já eu só tenho compulsão por nada
e recupero um dia péssimo
numa hora de caminhada

saio e acho uma frase inteligente
e essa é a melhor sacada

por que sou a bola da vez
na véspera da última tacada

terça-feira, 11 de maio de 2010

QUATRO OU CINCO MINUTOS

não quero o centro do palco
nem o melhor lugar da plateia baixa...
posso estar no mezanino atrás da coluna,
se você for comigo e eu pegar tua mão...

não quero a polinésia francesa;
nem um caro cruzeiro pelo Caribe...
posso descer o rio num bote inflável furado
se você remar comigo...

não quero a rapidez das pontes aéreas
nem velozes carros deslizando asfaltos lisos;
posso ir a pé com meus velhos sapatos gastos,
seguir trilhas empoeiradas cheias de cobras,
se lá no fim eu tiver 10% de chance
de te achar numa casinha branca...

por que numa manhã distante de chuva
bastaram quatro ou cinco minutos
para meu coração, que hibernava, acordar...

e tudo então que era importante,
de uma hora pra outra ficou "desimportante"
e lembrei que tinha, de novo,
pulmões pra encher de ar...

e de repente o velho coração
que acordou com toda fome do mundo;
achou em si mesmo
livros em branco de nuvens brancas
para encher com fotos
listas de músicas
receitas de bolos incríveis
e mesclar sonhos doces com realidades duras...

até que prevalesceu a realidade
com seus poderosos dedos de ferro...

quarta-feira, 28 de abril de 2010

BUMMMMMMMMMM!

bummmmmmmmmm
é a explosão
que não é demográfica

é a falta de letras
na ponta da esferográfica

é a ausência de ter o que dizer
quando a tristeza invade

é quando me espalho nos ares
não-fumante
no meio da fumaça dos bares

quando não estou em mim
nem em quaisquer outros lugares

sou o "entre-vírgulas"
que ameniza a frase

o defensor intransigente
da nova idéia que nasce
sem a menor base

sou o "entrelinhas"
que só eu entendo
quando durmo e sonho

mas depois quando acordo
não tem acordo
tudo é pura dor de cabeça

aponto "eu" o culpado
o que canta desafinado
o que se empanturra de gratinados
e que sai por aí sem ao menos ter chegado

quarta-feira, 14 de abril de 2010

"SIMPLESMENTE..."

em terra de vento
que quando vem arrasta
tudo que vê pela frente
"Simplesmente..."
chegou com as brisas mansas
que sopram de todos quadrantes

depois que chegou
nada mais foi como antes

passou o portão
sem cerimônia
veio pousando pólen
nas pobres flores do jardim
que eu não vinha cuidando

mais uns passos
que quase não eram passos
mais pareciam um voo
chegou planando
e não bateu na porta
foi entrando

"Simplesmente..."
decidida, drástica
esperta, bonita

foi procurando
o espaço de parede menos óbvio
para pendurar o quadro
de seu auto-retrato

foi dizendo poemas
com sorriso leve
e voz de nuvem branca
invadindo territórios abstratos
com seu autógrafo
suas digitais por tudo
deixando rastos
em meus pensamentos

assim todos códigos secretos
ficaram reduzidos
a senhas quase infantis

morses, Da Vincis
enigmas decifrados
e o resto do tempo
eu pensando em brincar de "escorrega"
em seu cabelo

simplesmente
por que existiu
o sorriso
e depois dele
o sol, os mares
adormeceram na noite fria
lençóis engomados
maranhenses, térmicos

"Simplesmente..."
é um banho morno
chocolate que vai derretendo
na boca...
é sonho
é expresso passado na hora
é voz de Marisa Monte
apenas e tão
"Simplesmente..."

segunda-feira, 5 de abril de 2010

PENSAMENTOS DESORDENADOS DE UMA TARDE DE QUASE INVERNO

você se foi
e, agora, não sei
para quem vou pedir
que me aqueça

sua ausência é paralisante
é tão sufocante
e, ao mesmo tempo,
tão congelante;
que é como passar o inverno todo
sem o calor da lareira

pior do que se preparar para recitar Neruda
e na hora só falar besteira

ficar sozinho
e me dar conta 
que te perdi para sempre 
é como inverno sem chocolate quente
é como cidade vazia de gente

nada agora parece ter a menor graça
tudo agora se parece com nada
e só resta namorar o vento
para gostar cada vez mais de frio
e reabilitar os casacos pretos pesados