terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

VALES, ANOTAÇÕES E INCERTEZAS

o silêncio é ensurdecedor
o calor é suor

o meu silêncio ofende
penetra pela fenda do vale

e de que vale
olhar a vida
com certo ar metido de discernidor
se notar o que poucos notam
é aterrador

se notar a verdade
que interessa pouca gente
praticamente
não vale um vale-transporte
não vale um vale-refeição
um grampo, nem um vale-gás

no fim eu é que pago o vale
e tudo pra mim é caro

sempre rasgo a nota amarela de vinte
sempre anoto idéias num guardanapo
sempre gravo idéias no celular
e quando termino ninguém nota
o que eu ando anotando

sobra passagem de ida
para uma espécie de exílio
forçado

entro como fugitivo
ou bandido temido
ninguém mora ao lado

no fundo eu sei
que brincar de se calar
é ensurdecedor

por que o silêncio
às vezes
é blasfemador
ultrapassa os 40 graus

o calor abrasa
o grito esvazia
o gelo da imperfeição derrete

e a cegueira que me acomete
e me impede de tocar
é como o tato que se repete
e me impede de ver

eu ouço gostos
grito cheiros

e dentro da minha imprevisível
previsão do tempo
eu posso chover

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

ESTRELA


Minha inspiração
quase uma piração
praticamente o meu ar

quero ficar sem fôlego
num mergulho em teu mar
só para voltar a tona
e te respirar

é que você é feita de flores
e quero ser teu jardim.......
                                     ...... de inverno
            de primavera-verão
            e de outono
           
            quero ser teu dono!

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

EM UMA SEMANA

INTERESSANTE
é o jeito como tu te aproximas
e eu te espero

SURPREENDENTE
é o jeito como fico sem jeito
te olho e te quero

e a RESPEITO do equilíbrio
entre o sol e teus olhos de mar
toda INTELIGÊNCIA é pouca
para desvendar
essa calma que acelera mil vezes
essa pressa que perde urgência
essa semana com cara de meses

o que é esse arraso
o que é esse riso por dentro
esse prazo
que diminuo em pensamento

e a RESPEITO do equilíbrio
entre o sol e teus olhos de mar
é esse teu CHARME
que me invade as portas
me tranca por dentro
some com as chaves
e sopra o meu tempo
com suaves ventos...

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

PÁSSARO NEGRO E SOLITÁRIO



Meu céu sem cor
tem tons de cinza claro
e de cinza-chumbo...

Degradê insólito
de sentimentos estranhos
e reações dispersas...

Os outros pássaros partiram
quando amanheceu o dia.
Ja não aguentavam mais tanto inverno!

Era hora de sair para procurar o sol
e chegar em algum lugar ainda intocado.

Eu vi a formação em "v" riscando céus
cada vez mais distantes;
até que a música do bater suave de asas
sumiu na barra triste do horizonte.

Na bolsa não levaram pão nem migalhas;
apenas os sonhos bons
e a receita para se viver
em constante estado de poesia.

Deixaram nuvens e mais nuvens
e eu aqui no galho seco da árvore.

Lambendo as feridas...
Formatando memórias...
Desistindo de reescrever a história...

Aqui sozinho... Doente...

Com os pés dormentes
e todos os cinzas-chumbo
morando em cima da minha cabeça.

Com minhas culpas me censurando...
E todos meus silêncios me envenenando...

Com as asas tão pesadas
e as perspectivas tão desoladas,
que nem o sol mais tórrido
consegue mais me esquentar!

E então nada mais tem o menor jeito
e só o que resta é a pura força
para inspirar o ar duro e rarefeito...

E podem anunciar que achei a dor
ou que perdi a cor...
Eu pássaro negro e solitário...
Abrindo as comportas de todas as tempestades!

[ FOTO: AMANDA FONSECA - Mais uma vez experimento o desafio e a delícia de colar palavras a uma imagem. Foi o que aconteceu. Veio a imagem por e-mail na foto que a Amanda me mandou. E depois de olhar a foto uns pares de vezes me ocorreram os versos que você acabou de ler. Confesso que pensei em dizer que ando mais para “estradas sujas do que para tapetes persas”. Isso ia combinar com meus sentimentos estranhos e as reações dispersas. Mas seria só uma rima. Pássaros solitários pousam em galhos secos e cortam os céus quando resolvem partir. Voam. Deixam os tapetes para quem anda.]

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

TÃO LONGE QUANTO O "A" É DO "Z"

Ruim demais
é quando estou nos alpes
e ao mesmo tempo nos andes...

Sempre atrasado
um minuto
ou adiantado
uma vida...

Pacífica
e Atlântica
camisa aberta
molhada de suor
e lágrima...

Eu velejando sem vento
no meio do Mar Morto...

Tolo..
Ridículo...
E assustudo!

Sou teu
de um jeito
como nunca fui nem de mim!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

GATINHO DE RUA

Gatinho sem mãe no meio da rua

não sabe o risco que corre...

No meio da via assustado

ou volta, ou morre...

 

Não era para estar na rua assim.

Devia era estar cravando as unhas de agulha

num novelo de lã pingouin...

 

Mas perdido-jogado-fora

agora é só ele, os motoristas apressados

e os pneus radiais...

 

Tudo encurta

ou fica por um triz,

e o perigo aumenta ainda mais...

 

O primeiro carro dá uma guinada e passa;

vem logo um segundo e desvia.

O gatinho indefeso indefine-se,

não sabe se arrepia ou mia...

 

Um outro carro passa tirando um fininho...

Horroriza a moça do quarto carro

que adora gatinhos!

 

O carro pára bruscamente e ela desce.

A rua, as casas e os outros carros

não entendem seu gesto,

mas acham bonito...

 

Ela salva o gatinho!

Pratica a primeira boa ação do dia!

Ela sente em seu colo

um coração felino

que quase sai pela boca de arritmia...

 

E a buzina no trânsito naquela fração de segundo

é pura impaciência...

Mas o que se devia era prestar reverência

Ao raro amor a vida que a moça espalha pela manhã

com grandiloqüência!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

PENSAMENTOS

De onde vêm esses pensamentos todos?
De onde essas idéias que eu tento mas não refreio?
Que de manhã, quando acordo, lembram teu rosto
e de noite, quando durmo, sonham todo tempo contigo.

De onde vêm essas palavras todas?
Que nascem para ser ditas
mas que por enquanto se limitam as formas escritas.
Que quando eu escrevo saem de mim
e são tantas, que vão daqui até o fim do fim.

De onde vêm esses pensamentos?
Que quando vou tirar algo do bolso o que sai é o teu sorriso...
Que quando abro gavetas só o que acho é o teu sorriso...

De onde vêm esse jeito de pensar em ti
com tanta insistência?
De onde vem essa quantidade de pensamentos
sem tua completa anuência?

São tantos pensamentos como as gotas de chuva...
Tantos como as partículas de pó na estrada de terra...

São tantos, mas tantos...
Que vou mudar a marcha e a minha mão erra...
E quando paro no sinal vermelho
incrivelmente espero que o teu sorriso acenda no lugar do verde...

Então quando vou em frente
os trigais no embalo da melodia do vento
me lembram teu jeito de ajeitar o cabelo...

E você aqui comigo de um jeito que nem sabe!

E meus pensamentos em ti
Insistentes...
Intrigantes...
Instigantes...
Não só de agora
mas desde muito antes!