Eu sou o homem que perdeu o nome.
O que toda segunda sai de casa para se esconder na chuva.
O homem que volta domingo para casa
carregando no bolso mais uma semana perdida...
Sinto um vazio esquisito no peito,
uma espécie de consciência aturdida!
Uma gaveta aberta nos pensamentos
e uma culpa muito grande autoatribuída...
Mas quando volto para casa
o primeiro grande susto é ver os móveis em outra posição.
Mas isso só é o bastante para eu me distrair por uns dez segundos...
No décimo primeiro eu já me livro das roupas suadas.
Enveredo o corpo pelo vapor de um banho morno demorado
e, quando acaba, vou atrás dos apitos irritantes do micro-ondas.
O estômago nas costas me faz ter a idéia de ressuscitar do gelo
a sobra de lasanha do jantar a dois que terminou em "bolo"...
Em poucos minutos devoro a porção na frente da televisão.
E, em menos de meia hora, estou entregue a um sono de sofá sem sonhos
que é interrompido pela música na hora do beijo do filme qualquer
que me acorda o corpo com o pescoço em ponto de torcicolo.
Seis da manhã vou esconder de novo o meu rosto na chuva...
Sair por aí para procurar o nome perdido...
Por que em semana de chuva intermitente
é muito mais fácil se manter anônimo na densidade do nevoeiro;
onde sobram mesquinhos e toda espécie de gente que "se acha".


