segunda-feira, 13 de setembro de 2010

AMOR DE SAL, MUMU E YPIÓCA

como amor pra vida

o rio e o mar pra pororoca,

o sal está pra pipoca

como o mumu pra tapioca

o limão, o açúcar e o gelo

...pra ypióca

 

o amor está no ar

na sorte e no azar

 

está no fogo e no jogo

na água e na mágoa

 

o amor é gelo e fervura

é gosto, gastura e gostosura

 

é um fio de navalha

ou de cabelo

o amor é um apelo

um grito no escuro

é um ai duro e puro

 

o amor está no poema

e no tema

é vogal que às vezes

precisa de trema

 

está na moldura do quadro

na frente, atrás

desse ou daquele lado

 

o amor é meu, é teu

por inteiro ou pela metade

 

está nas vontades

das puberdades

e das maturidades

nas pontas e meios

das longitudes

e latitudes

e é alheio

às vicissitudes


[ Mumu = É como se chama doce de leite pastoso no sul do Brasil ]

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

SONHOS AMARROTADOS


mergulhado em tristeza sem fundo
em inadequação do tamanho do mundo
procuro estrelas e só acho pontos de luz difusa

o sorriso se apaga
quando a luz das duas estrelas dos olhos se fecha
parca retórica até bonita, quando feio é quem usa
quero entrar noite adentro e sair ileso
mas com todo esse peso
a única brecha, mais veloz que flecha, se fecha...

soterrado por pensamentos estranhos
espero segundos mais lentos que passo de tartaruga
e como um paquiderme
rengueando para se safar do perigo
ostento a milésima fuga
e falo muito sem nem entender o que eu digo

não sei se são esperanças ou esperas inúteis
pego no sono com o cotovelo na mala e a mão no queixo

por dentro uma fala que insiste em gritar
mas que não deixo

e ao meu lado andando serenamente
aquele pedaço da noite de maior solidão
em que até os bêbados
e os que roubam carros já dormem

arrasto passos lentos mergulhado em tristeza
vou como se estivesse cavando buracos
no fundo de um imaginário poço

alguém me chama
parece ser do outro lado da rua
mas é a minha própria voz que eu ouço

e sei então que é hora de guardar
o vazio e a solidão dentro um do outro
e fazer como fazemos com as bolas de meia
entre as roupas da mala

ou as meias, ou as roupas se acomodando
ou simplesmente amassando

como amassados, por vezes ficam,
os lisos papéis das escrituras de posse
dos nossos sonhos adiados
que vão se amontoando...

[ NOTA: Sentei e comecei a ler. Não era uma história qualquer, era a história de uma das meninas, da série "As Meninas" da Deia do blog Rumo à escrita.

Estava lá o título “A menina e a noite - da série as Meninas - 6" me convidando para uma boa leitura. Em determinado ponto, a imagem dos minutos que se amontoam enquanto vamos esperando me fez pensar nas noites inteiras em que nos sentimos frios e vazios, a ponto de adormecer com o corpo pesado, pendendo sobre nossas malas e apenas com a noite no lugar do telhado. Na mesma hora, num comentário que deixei sobre o post, eu comentei com a Deia que aquela bela imagem, se bem explorada, daria um bom ponto de partida para uma nova poesia.

No mesmo dia ela veio aqui para me fazer um pedido. Perguntou: “porque não escreve o poema que imaginou ao ler aquela frase lá no Rumo”? Então eu reli “A menina e a noite”. Parei de novo no ponto do texto que me sugeriu as imagens e comecei a escrever.
Depois duma troca de e-mails com a Deia, eu enviei os versos acima, em primeira mão, para que ela “sentisse” a poesia. Sugeri que ela escolhesse uma imagem que casasse com a poesia e um título adequado, enfim algo da sua cabeça e que tivesse a ver com os sentimentos que a poesia despertasse nela.

Então ela escolheu essa foto fantástica que combina perfeitamente com as coisas que transitaram por minhas estranhas e escondidas avenidas quando concebi esse poema. E o título “Sonhos Amarrotados” é como uma roupa de festa cobrindo o meu poema com simplicidade e delicadeza.

Por último combinamos publicar em nossos respectivos blogs, de forma simultânea os meus versos, ao acompanhamento do título e da imagem escolhidos pela Deia. Um casamento perfeito para que vocês aproveitem e, depois, lá no Rumo à escrita ou aqui no Pelos caminhos dos plátanos deixem seus comentários."]

terça-feira, 17 de agosto de 2010

PARAFUSOS, SORVETES E TSUNAMIS

sou feito de parafusos que faltam;
alguns apertados quase espanando
e outros que fui perdendo
por causa da trepidação da vida...

mas que bom que, de tempos em  tempos
sopram tsunamis no peito
e terremotos nas pernas...

por que o sangue às vezes congela
como bolas de sorvete de passas ao rum;
e meus fios elétricos encostam tanto
que dói a boca do estômago...

mas é sempre assim
para quem se aprofunda
ultrapassa superfícies lisas
e vai ao âmago...

das questões...

é sempre assim
para quem é doce e amargo
e não exatamente compreende
todas extensões...

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

HAIKAIS DE SOLIDÃO E TRISTEZA

pela estrada

se vão todos meus medos

vão, e eu fico

 

já é de noite

lua acesa no céu

eu apagado

terça-feira, 27 de julho de 2010

MARCAS DE BORRACHA FRITA

sou estrada

com queda de barreira;

estante

cheia de poeira...

 

asfalto

com marca de borracha;

cheiro de papel novo...

 

estou aqui mostrando a cara

mas queria

ser um no meio do povo...

quinta-feira, 22 de julho de 2010

SILÊNCIOS E GRITOS

a película fina

que separa o silêncio do grito

é de vidro  

 

há um espelho embaçado

no vapor do banheiro

que mostra e esconde

a imensidão do nada

 

entre o que eu digo

e o que me cala

passa um rio de riso

outro de espanto

 

e o que eu tenho pra dizer

não sei se escrevo ou canto

 

se o que sinto é só meu

e combina com poesia

ou se é para sair alardeando

quase uma gritaria

 

por que esse rio de riso

chega sem fazer alarido

e o outro cheio de espanto

consegue dizer ou calar

o que eu não consigo

terça-feira, 13 de julho de 2010

CULPAS, GOLES DE VINHO E PARAFUSOS

saio para a caminhada
com o peso das culpas
que torna difícil o exercício

um vício de sofrer que deixa rasto
espécie de suplício
gado no pasto 

saio com os fardos lotados
mil erros nos bolsos
mil euros rasgados

saio com dardos envenenados
silêncio que amedronta
sobriedade que aos goles de vinho
sucumbe tonta

eu posso dar choque
eu quero um toque

eu posso ficar vestido
ou sair nu a reboque

eu posso roubar um parafuso
da Torre Eiffel
pra compensar o que tenho de menos